Humanidades

Xeque-mate no mito da reflexão lenta: estudo mostra que decisões mais rápidas tendem a ser melhores no xadrez profissional
Pesquisa internacional com mais de 215 mil jogadas desafia a ideia de que 'pensar mais' leva necessariamente a escolhas superiores; cientistas analisaram torneios de elite com auxílio de inteligência artificial e encontraram relação inversa entre...
Por Laercio Damasceno - 14/05/2026


Imagem: Reprodução


Em um mundo corporativo que costuma glorificar reuniões longas, análises exaustivas e decisões tomadas “com calma”, um novo estudo publicado nesta quarta-feira (13), na revista científica da Proceedings of the National Academy of Sciences, lança uma provocação incômoda: em contextos complexos e de alta pressão, decisões rápidas podem ser melhores do que aquelas excessivamente demoradas.

A conclusão emerge de uma investigação conduzida por pesquisadores da Ludwig-Maximilians-Universität München, da Erasmus University Rotterdam e da UniDistance Suisse, que analisaram mais de 215 mil jogadas realizadas em cerca de 3.600 partidas presenciais de xadrez profissional. O artigo, publicado em maio de 2026, conclui que quanto maior o tempo gasto em uma jogada, menor tende a ser sua qualidade estratégica.

O trabalho foi liderado pelos economistas Uwe Sunde, Dainis Zegners e Anthony Strittmatter. Para os autores, o resultado desafia concepções clássicas da psicologia cognitiva e da economia comportamental, segundo as quais decisões lentas e analíticas tenderiam a ser mais acertadas.

“A relação entre velocidade e qualidade decisória é ambígua em teoria”, escrevem os pesquisadores. “Tomar mais tempo pode significar maior reflexão, mas também pode indicar maior dificuldade subjetiva diante do problema.”


A pesquisa se apoia em um dos ambientes mais rigorosos já utilizados para estudar tomada de decisão humana: o xadrez profissional. Cada jogada foi comparada ao movimento considerado ideal pela engine Stockfish 17, um sistema de inteligência artificial cuja força estimada supera amplamente os melhores enxadristas humanos do planeta.

Os cientistas observaram partidas clássicas, rápidas e blitz — modalidades com diferentes níveis de pressão temporal. Em todas elas, o padrão se repetiu: jogadas mais rápidas estavam associadas a maior probabilidade de acerto. A relação tornou-se ainda mais intensa nas modalidades rápidas, em que os jogadores dispõem de poucos minutos para concluir toda a partida.

Na modalidade blitz, por exemplo, o coeficiente negativo entre tempo gasto e qualidade da jogada foi quase cinco vezes mais forte do que nas partidas clássicas.

Segundo os autores, isso não significa que pensar seja inútil. O estudo sugere algo mais sofisticado: quando um jogador demora demais, frequentemente é porque enfrenta um cenário percebido como cognitivamente difícil. Nesse contexto, o tempo adicional não necessariamente melhora a escolha — apenas revela a complexidade subjetiva da decisão.

“Decisões rápidas podem indicar forte intuição ou reconhecimento imediato da melhor alternativa”, afirmam os pesquisadores.

A hipótese dialoga com décadas de pesquisas sobre expertise. Desde os trabalhos pioneiros do psicólogo holandês Adriaan de Groot, nos anos 1940, cientistas investigam como mestres do xadrez reconhecem padrões quase instantaneamente, recorrendo menos ao cálculo profundo e mais à experiência acumulada. O novo estudo amplia essa tradição ao usar inteligência artificial e uma base de dados gigantesca para medir, lance a lance, o desempenho cognitivo de jogadores profissionais.

Os pesquisadores também controlaram variáveis que poderiam distorcer os resultados. Entre elas estavam a complexidade computacional da posição no tabuleiro, o tempo restante no relógio e a diferença de qualidade entre a melhor jogada possível e a segunda melhor alternativa. Mesmo após esses ajustes estatísticos, a relação negativa entre tempo e qualidade persistiu.

Para medir a dificuldade de cada posição, os cientistas calcularam quantos “nós” computacionais a engine precisou explorar até alcançar profundidade analítica suficiente. Quanto maior o número de cálculos exigidos, maior a complexidade da posição.

Além da Stockfish, os autores recorreram à Maia, uma engine treinada especificamente para reproduzir decisões humanas. Diferentemente de sistemas tradicionais, ela não busca o lance matematicamente perfeito, mas sim o movimento mais provável de ser escolhido por jogadores reais.


Os resultados se mantiveram consistentes mesmo com essa abordagem mais “humana” da inteligência artificial. Segundo o estudo, quando a Maia conseguia prever facilmente o melhor lance, a qualidade das decisões humanas aumentava — indício de que a percepção subjetiva de dificuldade é um fator central no processo cognitivo.

O impacto potencial da pesquisa vai muito além do tabuleiro.

Os autores argumentam que o xadrez funciona como um laboratório privilegiado para compreender decisões em ambientes complexos, competitivos e sob pressão — condições semelhantes às enfrentadas por executivos, investidores, militares, médicos e formuladores de políticas públicas.

“A tomada de decisão no xadrez é conceitualmente muito semelhante aos problemas enfrentados em diversos outros contextos”, afirmam.


Na prática, o estudo reforça uma visão cada vez mais presente em áreas como economia comportamental e neurociência: especialistas altamente treinados podem desenvolver mecanismos intuitivos extremamente eficientes, capazes de condensar anos de experiência em respostas rápidas e precisas.

Isso não significa que impulsividade seja virtuosa. A pesquisa mostra, inclusive, que maior tempo disponível melhora a qualidade geral das decisões. O ponto central é outro: o simples fato de alguém demorar mais para decidir não implica automaticamente maior profundidade analítica. Em muitos casos, pode indicar hesitação, incerteza ou dificuldade cognitiva.

Os cientistas também rejeitam interpretações simplistas sobre “pensamento rápido versus pensamento lento”, conceito popularizado pelo psicólogo e Nobel de Economia Daniel Kahneman. Segundo os autores, os resultados são incompatíveis com modelos tradicionais que associam automaticamente rapidez a superficialidade.

Em vez disso, o estudo aproxima-se de modelos contemporâneos conhecidos como “drift-diffusion”, usados para explicar decisões sob incerteza. Neles, decisões rápidas podem ocorrer justamente quando os sinais cognitivos são mais claros e consistentes.

Há ainda uma dimensão cultural embutida nos resultados. Em sociedades que frequentemente associam lentidão a prudência e rapidez a imprudência, o estudo sugere que eficiência cognitiva pode residir justamente na capacidade de reconhecer padrões sem necessidade de deliberação prolongada.

No universo do xadrez de elite, pensar menos — desde que sustentado por experiência e reconhecimento intuitivo — pode significar jogar melhor.

E talvez o mesmo esteja começando a valer para muitos dos dilemas estratégicos fora do tabuleiro.


Referência
U.Sunde,D.Zegners, &UM.Strittmatter,  Velocidade e qualidade de decisões estratégicas complexas, Proc. Natl. Acad. Sci. USA 123 (20) e2531472123, https://doi.org/10.1073/pnas.2531472123 (2026).

 

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